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O ano que centenas de finalistas do Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas (MICF) ansiavam. Pelo sentimento, pela nostalgia, pela derradeira despedida da cidade que os acolheu enquanto estudantes mas, acima de tudo pelo término das atividades letivas e pelo ingresso na profissão que escolheram exercer e honrar.

Estes finalistas, tal como toda a sociedade, não imaginavam a dimensão do problema que viria abalar o status quo, desafiar e adiar objetivos e ambições, mas sobretudo pôr em causa a saúde de todos nós.

Como já amplamente conhecido por todos, as Instituições de Ensino Superior prontamente adotaram medidas que permitissem a adaptação das atividades letivas, de forma a conter a disseminação da COVID-19. No entanto, pela carga prática, pelo entretanto decretado estado de emergência e pelo risco de contágio, os estágios curriculares foram maioritariamente suspensos.

A suspensão dos estágios curriculares desencadeou um turbilhão de questões- e emoções- por parte dos estudantes: “Quando irão ser retomados? Poderei fazer todos os estágios que me indicaram no inicio do ano letivo? Como será cumprida a diretiva europeia, em termos de tempo de estágio? Porque é que x faculdade agiu desta forma e a nossa de y?”. Questões, à altura, difíceis. Muitas, sem resposta consensual.

Faculdades, Conselhos Pedagógicos e demais envolvidos, teriam um desafio inglório pela frente: congregar preocupações e dar resposta à comunidade estudantil.

Recentemente, o estado de emergência foi levantado, e, prevendo esse acontecimento, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES) emitiu um comunicado que apelava a que a “realização de estágios cuja conclusão careça, ainda, de atividades presenciais” fosse prioritária, uma vez que estes são necessários para efeito de conclusão dos diversos cursos, incluindo o MICF.

Mais uma vez, as questões surgiram: “Os estágios vão ser retomados já?”, “Quantas horas vou fazer?”, “Estão asseguradas as condições de segurança?”. Dúvidas dilacerantes às quais foram exigidas respostas prontas e objetivas, em busca de alguma direção para aqueles a quem o decorrer normal das atividades foi imputado.

Com o decorrer da pandemia ficou patente a necessidade de expressão e reivindicação por parte dos estudantes, que atuaram através de diversos canais: comissões de curso, núcleos e associações de estudantes, conselhos pedagógicos. Mas não só. Ficou também patente a vontade de se incluírem na solução, tentando ajudar, também, aqueles a quem coube a tarefa de “agradar a gregos e troianos”, garantindo a sua voz e promovendo debates que podem refletir conclusões importantes para a inovação no ensino farmacêutico.

Particularizando, os estágios curriculares estiveram na ribalta pela incerteza associada a estes e a tudo o que estes permitem: conclusão do ciclo de estudos, momentos fulcrais de consolidação e sistematização de conhecimentos, contacto direto com o mercado de trabalho, reconhecimento da profissão que um dia irão abraçar.

No futuro, esta ribalta não deve desvanecer. Encaremos este momento adverso também como de reflexão.

Há “pequenas” mudanças a serem efetuadas, em prol da equidade do acesso e formação dos futuros farmacêuticos, que já vêm a ser defendidas há diversas gerações, nomeadamente, a criação de um normativo claro de competências base a adquirir, promoção e reforço das redes de

acompanhamento dos estágios por parte das IES e a implementação de um modelo de avaliação padronizado, claro e bilateral- do estagiário e da entidade promotora do estágio- por forma a garantir a capacitação técnico-científica, bem como a recolha de informação para futuros estagiários, que permita a todos as mesmas condições de partida, e que estes momentos de aprendizagem sejam melhores ou piores apenas por esforço, ou falta deste, e não por condições desiguais que podem ser corrigidas a priori.

Os estágio curriculares provaram, mais uma vez, a sua importância.

Estudante, faculdades e entidades profissionais: não descuremos destes.

Para além do já mencionado, a experiência obtida nos estágios tem um impacto sem precedentes na visão da profissão. Num momento em que, mais que nunca, o farmacêutico deve ser reconhecido como peça fundamental do sistema de saúde, importa começar a valorização da nossa profissão “de dentro para fora”, e essa valorização começa desde os bancos da faculdade.

Carolina Rojais
Presidente da Direção APEF – Associação Portuguesa de Estudantes de Farmácia

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