Aposta tripla para 2026: Remuneração, proximidade e inovação 861

Chegados ao fim do ano, é altura de fazer balanços e estabelecer metas (para 2026). O NETFARMA pediu a várias instituições do setor farmacêutico que fizessem isso mesmo, destacando três conquistas de 2025, três falhas ou lições aprendidas durante o ano e três apostas para 2026.

Ema Paulino, presidente da Associação Nacional das Farmácias (ANF), aponta, no rol das conquistas, o acesso simplificado a bombas de insulina, lembra, ao nível das lições, as Intervenção em Situações Clínicas Ligeiras, um “potencial ainda por concretizar”, e, por fim, sublinha, em termos de metas para 2026, a valorização profissional sustentada por um novo modelo de remuneração.

Três Conquistas de 2025

  1. 50 anos da ANF – afirmação de um propósito coletivo

“Em 2025 assinalámos os 50 anos da ANF, num programa iniciado em 2024 que celebrou a história, valorizou o contributo das farmácias para a saúde dos cidadãos e projetou o futuro do setor: a assinatura da Declaração pela Saúde por cinquenta entidades parceiras demonstrou um compromisso alargado com políticas de saúde centradas nas pessoas. A nova identidade institucional e o lançamento do website da ANF marcaram uma nova fase de modernização e alinhamento estratégico, consolidando o posicionamento “ANF. Uma voz pela Saúde” e reforçando o propósito de unir farmácias e sociedade e afirmando as farmácias como agentes ativos de saúde pública.”

2. Acesso simplificado a Bombas de Insulina

“A integração destes dispositivos nas farmácias comunitárias representou um salto qualitativo no tratamento da diabetes tipo 1. Esta mudança democratizou o acesso a tecnologia avançada, anteriormente circunscrita a centros especializados, disponibilizando-a em contexto de proximidade, conforto e acompanhamento farmacêutico permanente. Para além de promover maior autonomia e qualidade de vida, esta medida tem impacto direto na melhoria da adesão terapêutica e, por conseguinte, na diminuição de custos futuros para o SNS.”

3. Programa de Tratamento com Cloridrato de Metadona

“A retoma da administração e dispensa de metadona nas farmácias comunitárias reafirma o papel destas no apoio a políticas de intervenção social e de saúde pública. O protocolo assinado em 2025, entre o ICAD, o INFARMED, a Ordem dos Farmacêuticos, a ANF e a AFP, pretende reforçar a resposta nacional em comportamentos aditivos, melhorando a acessibilidade, a estabilidade terapêutica e o acompanhamento profissional contínuo, contribuindo para a redução de riscos, melhoria da adesão ao tratamento e reintegração social das pessoas em acompanhamento. Trata-se de uma resposta humanizada, tecnicamente sustentada e socialmente relevante.”

 

Três Lições no Ano

  1. Vacinação – reforçar a literacia em saúde

“A experiência recente demonstrou que as farmácias têm sido determinantes no reforço da acessibilidade à vacinação e no apoio às campanhas de saúde pública. O aumento da hesitação e da recusa vacinal evidenciou, contudo, que as boas taxas de cobertura não dependem apenas da disponibilidade de vacinas; exigem comunicação contínua, literacia em saúde e intervenção proativa de todos os intervenientes. Também as farmácias devem assumir um papel ativo na sensibilização da população, esclarecendo dúvidas, combatendo a desinformação e promovendo a confiança informada. A lição é geral: manter Portugal com elevadas taxas de vacinação requer políticas consistentes, modelos de colaboração robustos e uma atuação reforçada dos profissionais e instituições de saúde.”

2. Intervenção em Situações Clínicas Ligeiras – potencial ainda por concretizar

“Num contexto de pressão crescente sobre urgências e cuidados primários, a intervenção das farmácias em situações clínicas ligeiras, que permita às farmácias comunitárias fazer o atendimento de situações não urgentes, com o tratamento adequado ou encaminhamento, quando justificado, para os cuidados de saúde primários, constitui uma solução racional e eficiente. As competências dos farmacêuticos, suportadas por formação, protocolos clínicos e mecanismos de referenciação, permitem oferecer respostas seguras, rápidas e próximas, com impacto real na qualidade de vida das pessoas e na eficiência do sistema de saúde. A evidência internacional demonstra resultados consistentes; contudo, Portugal continua a atrasar a implementação plena deste modelo. Urge assim promover uma redistribuição eficaz das necessidades assistenciais pelos diferentes níveis de cuidados, garantindo maior capacidade de resposta, utilização adequada dos recursos e reforço da articulação e integração dos serviços.”

3. Interoperabilidade e comunicação entre profissionais

“A evolução do papel do farmacêutico exige acesso a informação clínica relevante, em tempo útil e em ambiente seguro. Sem interoperabilidade e partilha consistente de dados, perdem-se oportunidades de prevenção, duplicam-se atos e aumentam-se riscos clínicos. A plena integração das farmácias no Registo de Saúde Eletrónico Único permitirá fortalecer a abordagem colaborativa, aumentar a segurança do doente, reduzir ineficiências e consolidar a farmácia como elemento ativo na prestação de cuidados integrados.”

Três Apostas para 2026

  1. Talento na farmácia – valorização profissional sustentada por um novo modelo de remuneração

“Em 2026, a consolidação do modelo de farmácia comunitária exige uma aposta estruturada na valorização do capital humano, através de estratégias de atração, desenvolvimento e retenção de talento, em particular de farmacêuticos. O objetivo é assegurar carreiras qualificadas, diferenciadoras e alinhadas com a crescente complexidade clínica e organizacional da atividade farmacêutica.

Em paralelo, esta ambição implica uma revisão do modelo de remuneração das farmácias, de forma a reconhecer o valor clínico, social e de saúde pública gerado. O alinhamento entre remuneração, serviços e competências profissionais é condição essencial para criar modelos de prática mais atrativos e sustentáveis, capazes de responder às necessidades atuais e futuras do sistema de saúde.”

  1. Expansão dos serviços farmacêuticos e aposta na ciência e inovação

“Em 2026, as farmácias portuguesas pretendem aprofundar o seu contributo para a saúde pública através do reforço e diversificação dos serviços clínicos de proximidade, nomeadamente no acompanhamento da doença crónica, na intervenção em situações clínicas ligeiras, na dispensa de medicação hospitalar em proximidade e na participação ativa em programas de rastreio.

Em paralelo, a aposta na inovação, na ciência e na produção de evidência em mundo real, através do desenvolvimento de uma rede de farmácias de investigação, permitirá gerar conhecimento relevante para a prática clínica e para as políticas de saúde. A integração de soluções de inteligência artificial assumirá um papel estruturante no apoio à decisão clínica, na melhoria de processos, no aumento da eficiência operacional e na personalização dos cuidados, reforçando o valor clínico e social das farmácias e criando condições para modelos de prática profissional mais atrativos e sustentáveis.”

  1. Congresso das Farmácias e Expofarma 2026

“Nos dias 28, 29 e 30 de maio de 2026, o Centro de Congressos de Lisboa acolherá um dos momentos mais significativos do calendário farmacêutico nacional. Sob o lema “Pela Saúde, cuidamos com proximidade”, estes eventos constituirão um momento estruturante de reflexão, mobilização do setor e afirmação de uma visão orientada para a proximidade, a inovação e a sustentabilidade. Será uma experiência integrada, onde a reflexão estratégica se articula com a prática, a inovação aplicada se conjuga com a proximidade humanizadora e, numa só voz, se reafirma de forma concreta a proposta de valor da rede de farmácias para a sociedade.”