Para um bom comportamento (em saúde) 214

A mensagem dos dirigentes políticos no auge da primeira vaga da atual pandemia apelava aos cidadãos para que ficassem nas suas casas ou municípios. Meses depois era estimulado o regresso às escolas e aos empregos apelando a um “comportamento responsável”. Mas como estabelecer comportamentos acertados sem regulação, taxação ou coerção? E como o fazer numa área tão sensível como a saúde? Os comportamentos em saúde abrangem não só decisões individuais (como a vacinação ou a cobertura do seguro) com consequências coletivas (como é o caso da saúde publica) mas também as decisões dos gestores e dos prestadores dos serviços de saúde que podem afetar o bem-estar dos cidadãos, ter custos avultados ou ter efeitos inesperados e indesejados.

Para endereçar estas preocupações tem sido defendida a introdução dos princípios da economia comportamental [1] na análise de políticas publicas. Na área da economia, este é atualmente um hot topic que estende os princípios económicos permitindo que as decisões sejam afetadas por influências psicológicas e sociais. A investigação em economia comportamental não é nova. Entre os primeiros autores que desviaram a sua atenção da economia convencional para os limites da racionalidade contam-se inclusivamente alguns laureados com o prémio nobel para as ciências económicas, como Herbert Simon (laureado em 1978) com o conceito de bounded rationality ou Daniel Kahneman e Vermon L. Smith (2002) que desenvolveram a prospect theory e o conceito de ecological rationality, respetivamente. O conceito de nudges introduzido por Richard Thaler (2017) utiliza estímulos psicológicas subtis para influenciar comportamentos e tem sido muito utilizado em saúde, particularmente em comportamentos de risco e nutrição [2].

Algumas lições da economia comportamental estão a ser aplicadas ou estudadas no contexto da pandemia causada pelo coronavírus. Conceitos como a apreciação do risco de contágio que pode ser afetada por enviesamentos (excesso de confiança, otimismo, status quo bias, present bias, entre outros), ou fadiga comportamental resultante das imposições de confinamento, foram algumas das preocupações levantados pelos especialistas. Entretanto foram já adotados alguns “estímulos” (nudges) como os cartoons com instruções para a lavagem das mãos ou as marcações das distâncias de segurança no piso. Os investigadores têm questionado a eficácia do uso de certos estímulos para mudar as atitudes ou decisões. Contudo, devido à escassez de dados comportamentais em saúde obtidos em condições devidamente controladas e randomizadas, são usadas frequentemente experiências em laboratório ou de campo para aferir o impacto destas políticas. A falta de dados advém sobretudo dos custos avultados da recolha de dados in loco nos países ocidentais, de questões éticas ou barreiras organizacionais [3]. A rede europeia Behavioral Experiments in Health Network (BEH-Net) tem vindo a apresentar trabalhos  que utilizam métodos experimentais para avaliar o impacto de diferentes políticas (utilizando estímulos cognitivos, reputacionais, monetários, entre outros) nas escolhas e atitudes de utentes e de profissionais de saúde.

Em relação à COVID-19, os resultados experimentais mais recentes estão naturalmente ainda em revisão. A título de exemplo, apresento a evidencia já publicada e revista pelos pares relacionada com a “aversão à perda”, um conceito importante associado à prospect theory de Kahneman & Tversky [4] segundo o qual as pessoas valorizam as perdas mais do que os ganhos de tamanho equivalente. Motivados pelo atual enquadramento da pandemia através da cobertura mediática focada na contagem das perdas de vidas e na propagação descontrolada do vírus, os autores [5] pretenderam averiguar se a utilização de mensagens que destacam as vidas potencialmente perdidas (ao invés de apresentar as vidas potencialmente ganhas) podem motivar comportamentos diferentes relacionados com esta crise. Utilizando uma experiência online os investigadores mostraram que a “aversão à perda” não se aplica no contexto da COVID-19, pois a alteração da mensagem não tornou as pessoas mais prudentes no seu apoio à extensão do confinamento ou mais propensas a afirmar que seguiriam as diretrizes.

Os conhecimentos da economia comportamental como este e as ferramentas experimentais estão ao dispor dos decisores e cuidadores para influenciar os comportamentos humanos, uma parte muito importante da contensão da propagação da pandemia.

 

Joana Pestana,
Investigador Auxiliar Convidado na Nova School of Business and Economics

(A coluna Notas da Nova é uma contribuição para a reflexão na área da saúde, pelos membros do centro de investigação Nova Healthcare Initiative – Research. São artigos de opinião da inteira responsabilidade dos autores.)

 

Sugestões e referências:
[1] Para uma aprendizagem rápida ou refrescamento dos principais conceitos sugiro a leitura muito divertida dos post-its “Behavioural economics on a post-it” criados pelo autor Adam Oliver durante a pandemia.  Em 42 quadradinhos exemplificativos o autor explica alguns conceitos chave que vão desde as heurísticas ao conceito de priming e também algumas experiências famosas como o jogo do ultimato.
[2] Recentemente o jornal expresso acompanhou e disponibilizou os vídeos do ciclo de conferências “Nudge, o poder da decisão” com aplicações dos nudges ou “estímulos” em decisões que vão desde a alimentação, finanças até às politicas publicas.
[3] Galizzi, M. M., & Wiesen, D. (2017). Behavioural experiments in health: an introduction. Health Economics, 26(S3), 3-5.
[4] Kahneman, Daniel; Tversky, Amos (1979). “Prospect Theory: An Analysis of Decision under Risk“. Econometrica. 47 (2): 263–291
[5] Sanders, M., Stockdale, E., Hume, S. and John, P. (2020) “Loss aversion fails to replicate in the coronavirus pandemic: Evidence from an online experiment”, Economic Letters.

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