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A importância da medição da qualidade dos cuidados de saúde no SNS

13 de fevereiro de 2017

“Medição dos cuidados de saúde baseada em valor” foi o tema da Conferência ICHOM em Portugal que se realizou nos dias 10 e 11 de fevereiro na Reitoria da Universidade Nova de Lisboa. A iniciativa conjunta da Nova School of Business and Economics, da Nova Medical School e do Centro Hospitalar de Lisboa Central, reuniu os mais importantes stakeholders da saúde em Portugal, bem como alguns nomes da saúde a nível internacional.

Para João Marques Gomes, CEO da Nova Healthcare Initiative e investigador de gestão e economia da saúde na Nova SBE, este encontro teve como objetivo lançar o debate e alertar os principais representantes da saúde em Portugal para a necessidade de existirem padrões de medição da qualidade dos serviços de saúde prestados no Sistema Nacional de Saúde ou Serviço Nacional de Saúde (SNS).

«Todos sabemos o número de consultas realizadas, o número de cirurgias ou o número de internamentos. Mas não sabemos se esses cuidados prestados foram de qualidade e se resultaram em benefício para o doente e é isso que esta iniciativa vem propor», referiu.

O ICHOM tem como objetivo transformar os sistemas de saúde a nível mundial, através da mediação e avaliação dos resultados observados nos pacientes, sendo estes resultados fundamentais para medir a qualidade dos cuidados de saúde prestados.

Em termos práticos, o ICHOM consiste no desenvolvimento de métricas de saúde com resultados focados no paciente. Interessa o resultado final e menos o processo. Este sistema beneficiará os pacientes, os profissionais de saúde, e todo o Sistema de Saúde, defendeu Cristina Åkerman, presidente do ICHOM.

O doente no centro do sistema
Durante os dias de debate ficou claro que é urgente haver uma alteração de fundo na forma como se medem os resultados do Sistema de Saúde português.

O ministro da Saúde, que presidiu à sessão de abertura, frisou ser necessário que os profissionais de saúde, assim como os decisores políticos e Indústria Farmacêutica, tenham abertura para se porem à prova, «testando-nos todos», sobre a real capacidade dos stakeholders conseguirem «pôr o doente no centro do Sistema», algo que «não temos conseguido fazer».

Para Adalberto Campos Fernandes, o que realmente interessa é «organizar as respostas em função dos interesses das pessoas (doentes)», fazendo conciliar os «interesses individuais» com o interesse geral, sintetizou.

O governante elogiou o método ICHOM e clarificou que o processo de transformação (em Portugal) já está em curso e que caminha a passos largos para uma mudança que, independentemente das vontades corporativas, vai mesmo avançar.

Da parte do Governo, segundo o ministro, há vontade de investir um novo modelo de medição dos resultados em função das necessidades dos pacientes. «O governo está centrado na transparência», uma viragem de metodologias que irá conduzir a «uma competição pela qualidade, focando-nos nos resultados, permitindo que haja experiências diferentes», como é exemplo a nova lei da gestão hospitalar. Com o aumento da transparência vai ser possível «mostrarmos aquilo que está a ser bem feito, expondo aquilo que existe de menos bom, sem medo», concluiu.

IF como «facilitador» da mudança
A Indústria Farmacêutica (IF) já estará alinhavada com esta nova realidade, segundo Cristina Campos, vice-presidente da APIFARMA. A responsável adiantou que a APIFARMA já está a promover um debate interno «muito profundo» com vista a alteração de paradigma que está em cima da mesa.

«Tem de haver um esforço alinhado para que consigamos chegar a um consenso, para que juntos consigamos chegar a uma posição comum que ajude os nossos doentes», sublinhou.

Cristina Campos admitiu, porém, que só será possível fazer arrancar este processo comum se se avançar para um quadro nacional em que a transparência de dados veja a luz do dia. «A transparência e o acesso aos dados são fundamentais para haver uma mudança efetiva do sistema».

«A IF quer ser um facilitador e colaborador ativo em prol da sustentabilidade do sistema», concluiu.

Informação a mais prejudica
Já Paulo Cleto Duarte, presidente da ANF, não se mostrou tão convencido quanto à bondade do avanço na referida necessidade de mudança nas medições em Saúde. «Até hoje só ainda acredito num “cálice sagrado”… Não sei se há um novo cálice sagrado que resolva o problema (…) Todos nós queremos proteger o nosso espaço. Os hospitais querem chegar a casa do doente. As farmácias querem entrar nos hospitais, a indústria quer arranjar forma de “entrar” no sistema. Assim, não vamos chegar a lado algum», admitiu

«Mudança é a palavra-chave. Continuamos a falar de doença mas ninguém fala de prevenção. Continuamos centrados na doença, mas ainda não chegámos às pessoas», justificou.

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