Artigos / Opinião

Notas da Nova

2018-07-24

 

 

Integração de cuidados de saúde: Um papel acima de positivo

A integração de cuidados de saúde traz benefícios em diferentes níveis, ainda que não tenha tido a atenção merecedora dos atores do setor da saúde, o que poderá estar relacionado com a baixa capacidade de perceção de tais benefícios por parte dos utilizadores (Gillies, 2006). Diversos estudos têm revelado os seus benefícios, sendo um exemplo o trabalho desenvolvido por Huber et al. (2016) que teve como objetivo investigar o efeito de modelos integrados de cuidados em internamentos relacionados com a doença, como um indicador de qualidade e custo de saúde, em doentes com diabetes, doenças cardiovasculares e doenças respiratórias.

O estudo permitiu concluir que os doentes com diabetes e problemas cardiovasculares, tratados com modelos integrados de atendimento, tinham uma probabilidade significativamente menor de internamentos relacionados com a doença, comparados com doentes que foram tratados com modelos de atendimento padrão e, que os custos de saúde eram, do ponto de vista estatístico, significativamente menores em todos os três grupos de doentes com atendimento integrado. Quando os hospitais assumem um papel mais pro-ativo no atendimento integrado, o impacto na qualidade tem sido extremamente positivo.

O estudo de Naylor et al. (2015) destacou quatro exemplos que resultam em vários benefícios: (1) O High Risk Patient Programme operado pela Northumbria Healthcare NHS Foundation Trust and partners tem sido associado a uma queda significativa de admissões evitáveis e de readmissões de urgência; (2) em Sheffield, uma tendência ascendente de internamentos evitáveis parece ter sido revertida. Desde que o programa Right First Time foi iniciado, houve uma queda de internamentos de pacientes que podiam ser tratados pelos cuidados de saúde primários; (3) o programa Discharge to Assess em South Warwickshire foi associado a uma redução de 33% na duração de internamento, a uma queda de 15% nos novos internamentos hospitalares após a alta hospitalar e, ainda, a uma queda de 15% na mortalidade (4) a provisão de telessaúde para as casas de saúde pela Airedale NHS Foundation Trust foi associada a uma queda de 37% nos internamentos hospitalares e a uma redução de 45% nos atendimentos por acidente e urgência dos centros de atendimento afetados. Ainda, Hofmarcher et al. (2007) revelou como as discussões políticas sobre a coordenação da prestação de cuidados estão positivamente associadas aos objetivos de qualidade do atendimento (ou seja, impacto sobre os resultados de saúde e capacidade de resposta para as necessidades do paciente) e eficiência de custos, refletindo como as ferramentas de integração de cuidados de saúde permitem o aumento da habilidade de transferência de conhecimento de um prestador de cuidados para outro, diminuindo o conflito dos protocolos clínicos, bem com o aumento da prática da capacidade de aprender.

Em Portugal, num estudo (a) realizado durante abril, maio e junho de 2016, no qual participaram 395 profissionais de saúde (médicos, enfermeiros, administrativos, assistentes operacionais, técnicos superiores de saúde de diagnóstico e terapêutica e técnicos superiores de saúde) de um hospital público, teve como objetivo compreender melhor o efeito da integração dos cuidados de saúde no desempenho objetivo, medido através de dois indicadores incluídos na contratualização dos hospitais (tempos de espera para as consultas e números de consultas realizadas, referenciadas pelos cuidados de saúde primários e outros hospitais). O estudo considerou ainda o desempenho da qualidade de serviço percebido pelos profissionais de saúde. A integração foi medida tendo em conta os níveis reportados pelos profissionais referentes a três dimensões: capacidade de resposta dos cuidados assistenciais, nível das relações formais do hospital com a comunidade (cuidados de saúde primários, organizações do setor social e cuidados continuados) e nível das redes de comunicação informal (comunicação interna entre especialidades, comunicação hospital-doente/família e comunicação com redes de investigação internacionais).

Foram também consideradas variáveis como a espiritualidade das equipas, o envolvimento dos profissionais e a coordenação relacional. Contudo, apenas as equipas que reportaram maiores níveis de integração foram aquelas que apresentaram maiores níveis de desempenho, quer em termos objetivos, quer em termos percetivos. Ainda, de destacar o papel da espiritualidade, composta pelas dimensões vida interior, trabalho com significado e sentido de comunidade, bem como do envolvimento no trabalho, no alcance de maiores níveis de desempenho percebido, neste estudo, referente à qualidade de serviço. Conclui-se que níveis mais elevados de integração geram maiores níveis de espiritualidade e envolvimento dos profissionais, o que, por sua vez, gera maiores níveis de desempenho. Revelados os efeitos positivos na eficiência, rapidez e qualidade, a integração representa um grande significado nos ganhos de saúde das populações.

Referências:

Gillies, R. R.; Chenok, K. E.; Shortell, S. M.; Pawlson, G. & Wimbush, J. J. (2006). The impact of health plan delivery system organization on clinical quality and patient satisfaction. Health services research, 41 (4), 1181–1191.
Hofmarcher, M. M.; Oxley, H. & Rusticelli, E. (2007). Improved health system performance through better care coordination (OECD Health Working Paper No. 30).
Huber, C.; Reich, O.; Früh, M. & Rosemann, T. (2016). Effects of Integrated Care on Disease-Related Hospitalisation and Healthcare Costs in Patients with Diabetes, Cardiovascular Diseases and Respiratory Illnesses: A Propensity-Matched Cohort Study in Switzerland. International Journal of Integrated Care, 16 (1). 1–18.
Naylor, C.; Alderwick, H. & Honeyman, M. (2015). Acute hospitals and integrated care. London: The King's Fund.
(a) Tese de doutoramento (Albuquerque, 2018): Performance of healthcare organizations: contributing variables to efficiency and quality. Orientação: Professora Doutora Rita Campos e Cunha. Nova School of Business and Economics, Lisbon.

Isabel Albuquerque,

Teaching Assistant na Nova SBE
Project Manager NOVAsaúde

(A coluna Notas da Nova é uma contribuição para a reflexão na área da saúde, pelos membros do centro de investigação Nova Healthcare Initiative – Research. São artigos de opinião da inteira responsabilidade dos autores)